Michael Bay, Michael Bay. Como se diz aqui para os nossos lados, não habia nexexidade, que o artista é um bom artista. Então converteste-me à tua causa de grandes explosões e bandeiras americanas a adejar ao vento com o primeiro Transformers, e agora tinhas de estragar tudo?
Não tenho medo de o gritar aos sete ventos: adorei o primeiro Transformers. Transcrevo o que então escrevi: ADOREI ESTE FILME! Por duas horas e picos, deixei de ser uma jovem a ver um filme numa sala de cinema do Monumental, e fui uma criança a ver a sua série preferida na televisão ao Sábado de manhã... Surpreendentemente, acho que o filme está muito fiel ao espírito da série original, transposto claro está para os dias de hoje.
Pois é. Mas a verdade é que já o trailer me deu uns arrepiozinhos de reciclagem de enredos, conforme confessei no estamine do lado.
Ora. Tendo em conta que a coisa não é para levar a sério, o enredo de Transformers não é original, mas está bem bolado. Ah então as pirâmides foram construídas por extraterrestres? Tá bem… Venham daí as explosões, lutas entre robots gigantes, e comic relief de Shia LaBeouf, que é para isso que aqui estamos.
Mas… apesar de começar por rebentar com metade da cidade de Xangai, o filme perde quase imediatamente o ritmo e deixa-se ficar numa lenta modorra por mais de uma hora. Por mais de uma hora! Há uns pozinhos de conflito entre os Autobots (que agora trabalham com o exército americano numa unidade especial de caça aos Decepticons) e um funcionáriozeco qualquer a quem o Presidente fez a asneira de nomear como elemento de ligação. Há uns arremessos mal bolados de comédia universitária com Sam a tentar adaptar-se à faculdade na Costa Leste e à distância da namorada. E aos poucos vão aparecendo aqui e ali sinais indiscutíveis que os Decepticons (liderados provisoriamente por Starscream) andam a preparar das suas. Mas tudo isto vai acontecendo muuuito lentamente…
Quando finalmente ressuscitaram o Megatron (eh pá, que surpresa) e apareceu o famoso Vencido (o The Fallen do título original), lá pensei, finalmente estamos prontos para o último acto! E depois qual não é o meu espanto, que o filme vai para intervalo. Eu a pensar que faltava para aí meia hora de filme… e faltava mais de uma hora. Meus caros, pela primeira vez na vida, ponderei seriamente abandonar o cinema no intervalo e ir logo para a Feira Internacional de Artesanato…
Mas aguentei, e a parte final lá foi mais interessante, embora algumas cenas de acção continuassem a ser muuuito demoradas. Aquela cena do Sam e da Mikaela a correr pelo deserto para ir ter com os Marines nunca, mas nunca mais acabava! E por comparação, o confronto final entre o Optimus Prime e o Megatron e o Vencido foi estranhamente breve…
Tudo isto um pouco piorado pelo facto de alguns dos melhores elementos do primeiro filme terem passado para segundo plano. O Bumblebee, um dos melhores e mais expressivos Autobots, é quase relegado para um papel secundário, e como comic relief aparecem os gémeos Arcee, um par de robots tão idiotas, tão idiotas que já foram comparados ao Jar Jar Binks! Criminoso, caros leitores, criminoso.
Estive hoje a consultar a IMDB e fiquei abismada ao constatar que este filme tem apenas seis minutos a mais que o primeiro (150 minutos versus 144). Pareceu que durou o dobro… Toda a parte inicial do filme é demasiado demorada e serve apenas como desculpa para inserir meia dúzia de gags e preparar o previsível sacrifício de uma das personagens, que depois obviamente irá ser ressuscitada para o grande final. Nem parece ser dos mesmos argumentistas de Star Trek (Roberto Orci e Alex Kurtzman), filme que bem recentemente louvei pelo seu ritmo dramático quase perfeito. Enfim. Tenho a sensação que perdi quase três horas da minha vida a ver explosões.
Não habia nexexidade, Michael Bay. Não habia nexexidade.
29 de Junho de 2009
14 de Maio de 2009
Reino dos Céus (cinema v. director's cut)
Duas críticas que mostram bem como a diferença entre o bom, o mau e a obra-prima pode ser decidida na sala de montagens. Não vejam isto como uma tomada de posição irredutível a favor dos director's cut - alguns há que mais valia não terem sido feitos, e às vezes não passam de um estratagema para vender mais DVD's. Mas esse não foi o caso de Reino dos Céus.
I - A versão cinematográfica
Devo dizer que gostei deste filme, embora esperasse um pouco mais do realizador de Gladiador. A febre dos épicos históricos gerados pela obra de Ridley Scott não lhe chega, nem de longe, aos pés (ou sandálias): Tróia é uma obra sem princípio nem fim, Rei Artur nunca cria uma ligação emocial com o espectador, e Alexandre podia ter sido uma obra-prima, mas fica-se por uma mistura de cenas magistrais com outras que fazem qualquer peplum italiano parecer digno de um Óscar.
E entretanto volta Ridley Scott, o homem que recomeçou tudo isto, com um filme sobre as Cruzadas. Os meus receios sobre a representação histórica revelaram-se infundados: já devia saber que Scott não caía nessa esparrela. Neste filme os muçulmanos são, até, representados de forma mais digna que alguns auto-intitulados "cristãos". Os Templários, em especial, fazem as vezes de maus da fita, doidinhos por matar infiéis e saquear as suas riquezas. Mas este filme não tem um vilão propriamente dito, antes é a crónica de como as relações entre cristãos e muçulmanos deslizaram irremediavelmente da coexistência para a guerra aberta. Há algo de fundamentalmente trágico no encontro entre Saladino e Balduíno, o jovem rei leproso: duas figuras solitárias na terra de ninguém ente os exércitos, ambos desejando a paz mas levados à guerra por fé, obrigação, santidade, desespero.
Mas Orlando Bloom não é Russell Crowe, e isso faz toda a diferença. Em nem sequer sou daqueles que gosta de bater no ceguinho: gostei muito das interpretações de Bloom em Piratas das Caraíbas e Senhor dos Anéis. Mas neste filme ele parece usar sempre a mesma expressão inexpugnável, quer liderando uma carga de cavalaria, quer a sós com a princesa Sybilla. A recusa de Maximus em tornar-se o Protector de Roma ressoa de angústia: é a escolha entre o dever perante o seu mentor e o amor à família. A recusa de Balian em aprovar a execução de Guy e casar com Sybilla mais parece um amuo, vinda de um homem cuja fé se parecer transfomar ao sabor do vento conforme as conveniências do guião e não fruto de verdadeira evolução anterior.
E diga-se de passagem, que a banda sonora não é nada de especial (desta vez Scott não trabalhou com Hans Zimmer), excepto a ária Vide Cor Meum da autoria de Patrick Cassidy (que se ouve na cena da morte de Balduíno), escrita para um anterior filme de Scott, Hannibal (e disponível na BSO do mesmo). Também a protagonista feminina, Eva Green, nunca aquece nem arrefece. Salvam-se os sempre fenomenais Liam Neeson, Jeremy Irons e Edward Norton, este último numa discreta participação como Balduíno.
Publicado originalmente a 16 de Maio de 2005 em Listening to Dragons (olha que giro, mais dois dias e fazia quatro anos certinhos).
II - O director's cut
Conforme tive oportunidade de escrever à época, a versão de Reino dos Céus que passou nos cinemas era interessante, mas ficava algo aquém do nível a que Ridley Scott nos habituara. Quando surgiram as notícias de um director's cut unanimemente aclamado como muito melhor que a versão cinematográfica, o filme entrou logo para a minha lista de imprescindíveis.
Com 194 minutos, ou seja, mas 49 que a versão que vimos nos cinemas, Reino dos Céus torna-se um filme muito mais equilibrado e interessante. Se muito do que foi acrescentado é, como o próprio Scott menciona na sua breve introdução, «caracterização orgânica», há todo um sub-enredo que foi totalmente cortado da versão exibida, corte contra o qual o realizador lutou até ao final. Isto faz pensar na inteligência (leia-se: ausência de...) dos tipos que mandam nestas coisas.
Na minha primeira crítica escrevi: «a protagonista feminina, Eva Green, nunca aquece nem arrefece». Pois. No director's cut Sybilla tem um filho, herdeiro do trono de Jerusalém, e isso faz toda a diferença. A evolução da personagem e as suas acções ganham um novo sentido em face da sua posição de mãe; em especial a sua conduta durante o cerco de Jerusalém torna-se a lógica reacção a um acto desesperado de amor pelo filho, e não apenas o desgosto pela morte do irmão, como parecia suceder na primeira versão do filme.
Por outro lado, também a personagem de Orlando Bloom surge um bocadinho melhor, um bocadinho mais desenvolvida. Mas continua a ter o mesmo problema. O artista é um bom artista, mas a crucial recusa de Balian em ser rei não chega aos pés do «Will all my heart, no» com que Maximus Decimus Meridias recusa ser o Protector de Roma.
Tudo somado, fica a minha recomendação: ignorem a versão cinematográfica e vejam o director's cut.
Publicado originalmente a 5 de Fevereiro de 2007 em Listening to Dragons.
I - A versão cinematográfica
Devo dizer que gostei deste filme, embora esperasse um pouco mais do realizador de Gladiador. A febre dos épicos históricos gerados pela obra de Ridley Scott não lhe chega, nem de longe, aos pés (ou sandálias): Tróia é uma obra sem princípio nem fim, Rei Artur nunca cria uma ligação emocial com o espectador, e Alexandre podia ter sido uma obra-prima, mas fica-se por uma mistura de cenas magistrais com outras que fazem qualquer peplum italiano parecer digno de um Óscar.
E entretanto volta Ridley Scott, o homem que recomeçou tudo isto, com um filme sobre as Cruzadas. Os meus receios sobre a representação histórica revelaram-se infundados: já devia saber que Scott não caía nessa esparrela. Neste filme os muçulmanos são, até, representados de forma mais digna que alguns auto-intitulados "cristãos". Os Templários, em especial, fazem as vezes de maus da fita, doidinhos por matar infiéis e saquear as suas riquezas. Mas este filme não tem um vilão propriamente dito, antes é a crónica de como as relações entre cristãos e muçulmanos deslizaram irremediavelmente da coexistência para a guerra aberta. Há algo de fundamentalmente trágico no encontro entre Saladino e Balduíno, o jovem rei leproso: duas figuras solitárias na terra de ninguém ente os exércitos, ambos desejando a paz mas levados à guerra por fé, obrigação, santidade, desespero.
Mas Orlando Bloom não é Russell Crowe, e isso faz toda a diferença. Em nem sequer sou daqueles que gosta de bater no ceguinho: gostei muito das interpretações de Bloom em Piratas das Caraíbas e Senhor dos Anéis. Mas neste filme ele parece usar sempre a mesma expressão inexpugnável, quer liderando uma carga de cavalaria, quer a sós com a princesa Sybilla. A recusa de Maximus em tornar-se o Protector de Roma ressoa de angústia: é a escolha entre o dever perante o seu mentor e o amor à família. A recusa de Balian em aprovar a execução de Guy e casar com Sybilla mais parece um amuo, vinda de um homem cuja fé se parecer transfomar ao sabor do vento conforme as conveniências do guião e não fruto de verdadeira evolução anterior.
E diga-se de passagem, que a banda sonora não é nada de especial (desta vez Scott não trabalhou com Hans Zimmer), excepto a ária Vide Cor Meum da autoria de Patrick Cassidy (que se ouve na cena da morte de Balduíno), escrita para um anterior filme de Scott, Hannibal (e disponível na BSO do mesmo). Também a protagonista feminina, Eva Green, nunca aquece nem arrefece. Salvam-se os sempre fenomenais Liam Neeson, Jeremy Irons e Edward Norton, este último numa discreta participação como Balduíno.
Publicado originalmente a 16 de Maio de 2005 em Listening to Dragons (olha que giro, mais dois dias e fazia quatro anos certinhos).
II - O director's cut
Conforme tive oportunidade de escrever à época, a versão de Reino dos Céus que passou nos cinemas era interessante, mas ficava algo aquém do nível a que Ridley Scott nos habituara. Quando surgiram as notícias de um director's cut unanimemente aclamado como muito melhor que a versão cinematográfica, o filme entrou logo para a minha lista de imprescindíveis.
Com 194 minutos, ou seja, mas 49 que a versão que vimos nos cinemas, Reino dos Céus torna-se um filme muito mais equilibrado e interessante. Se muito do que foi acrescentado é, como o próprio Scott menciona na sua breve introdução, «caracterização orgânica», há todo um sub-enredo que foi totalmente cortado da versão exibida, corte contra o qual o realizador lutou até ao final. Isto faz pensar na inteligência (leia-se: ausência de...) dos tipos que mandam nestas coisas.
Na minha primeira crítica escrevi: «a protagonista feminina, Eva Green, nunca aquece nem arrefece». Pois. No director's cut Sybilla tem um filho, herdeiro do trono de Jerusalém, e isso faz toda a diferença. A evolução da personagem e as suas acções ganham um novo sentido em face da sua posição de mãe; em especial a sua conduta durante o cerco de Jerusalém torna-se a lógica reacção a um acto desesperado de amor pelo filho, e não apenas o desgosto pela morte do irmão, como parecia suceder na primeira versão do filme.
Por outro lado, também a personagem de Orlando Bloom surge um bocadinho melhor, um bocadinho mais desenvolvida. Mas continua a ter o mesmo problema. O artista é um bom artista, mas a crucial recusa de Balian em ser rei não chega aos pés do «Will all my heart, no» com que Maximus Decimus Meridias recusa ser o Protector de Roma.
Tudo somado, fica a minha recomendação: ignorem a versão cinematográfica e vejam o director's cut.
Publicado originalmente a 5 de Fevereiro de 2007 em Listening to Dragons.
7 de Maio de 2009
Star Trek
Para entrar logo a matar tenho que dizer isto com todas as letras: J.J. Abrams fez deste Star Trek a aventura que as prequels da saga Star Wars queriam ser… e nunca conseguiram. Pronto, está dito, e as minhas credenciais como fã de Star Wars talvez nunca recuperem. Mas é mesmo assim. I laughed, I cried, I cheered. Saí do cinema com vontade de ir ver o filme de novo já na sessão seguinte! Star Trek chegou ao novo milénio e nada será como dantes. Recomendo este filme aos fãs inveterados de Star Trek, aos apreciadores de ficção científica, e a todos os que gostam de bons momentos de entretenimento. O filme pode ser igualmente apreciado por todos, e estou certa que vai rebentar com a bilheteira…Se o parágrafo supra vos dá uma ideia do meu entusiasmo e apreciação por este filme, tanto melhor, porque eles estão em níveis estratosféricos. Na semana passada escrevi sobre X-Men Origens: Wolverine e sobre como, apesar das suas falhas, o filme me entreteve e divertiu. Mas Star Trek emocionou-me, coisa rara no cinema de ficção científica. Aos primeiros dez minutos de filme já estava eu quase em lágrimas com a destruição da USS Kelvin e o dramático nascimento de James T. Kirk, para logo em seguida ir às gargalhadas com as tropelias de um Kirk já crescido e devidamente rebelde na Academia da Frota Estelar.
Tentei ao máximo evitar os spoilers, mas ainda assim o parágrafo seguinte contém informação que alguns poderão querer evitar.A forma como J.J. Abrams consegue equilibrar momentos de grande humor com cenas carregadas de tensão é quase extraordinária. Abrams não teve qualquer receio de deitar pela janela fora elementos que diríamos imutáveis no universo Star Trek, fazendo uma opção extremamente corajosa em termos de enredo que tem uma fortíssima carga dramática. Voltando à comparação com Star Wars: no Episódio IV – Uma Nova Esperança, a destruição de Alderaan pela Estrela da Morte é sem dúvida um momento emocionante, mas… a verdade é que não conhecemos Alderaan nem os que lá vivem. Mas Abrams, demonstrando ter tintins da dimensão das luas de Júpiter, rebenta com (ou melhor dizendo, implode) um dos planetas mais conhecidos da Federação! O drama! A tragédia! E não, não estou a exagerar. Foi este o momento em que soube, com toda a certeza, que já não estava no Kansas…
Fim de spoilers!
Outro ponto onde Abrams vence em toda a linha é o diálogo. A ficção científica vive eternamente com o risco de afogar o diálogo e a tensão dramática com descrições de pseudo-ciência que soam ocas. Nas imortais palavras que Harrison Ford disse um dia a George Lucas, “you can type this shit, but you sure can't say it”. Mas Abrams consegue o quase milagre de descrever a lógica e as consequências de uma viagem no tempo, e a forma como a alteração de determinados acontecimentos pode criar uma linha temporal separada – uma realidade alternativa – numa cena de diálogo na ponte da USS Enterprise que explica tudo o que tem a explicar com uma cadência e autenticidade impecáveis.
O elenco igualmente vence em toda a linha, tarefa nada fácil se recordarmos que os membros da tripulação da USS Enterprise serão sempre inevitavelmente comparados ao elenco da série de televisão original. São todos fantásticos, mas tenho de me alongar nos elogios à trindade Kirk, Spock e McCoy.
Leonard McCoy (Karl Urban) tem uma cena de introdução hilariante que desde logo estabelece algumas excentricidades da personagem, e explica a origem da alcunha “Ossos” que Kirk lhe atribui. Mas depois disso a personagem, embora tenha momentos relevantes, apaga-se um pouco. É que este é na essência um filme sobre Kirk e Spock e sobre como, aparentemente, eles estão destinados a ser os melhores amigos em todos os universos possíveis.
James Tiberius Kirk (Chris Pine), consegue libertar-se da aura de canastrão que William Shatner deu à personagem. Este Kirk é-nos apresentado com uns arzinhos de bad boy à la James Dean, e a rebeldia que sempre o acompanhará tanto o mete em sarilhos, como o faz sair deles.
Spock (Zachary Quinto) está perfeito, absolutamente perfeito. Era sem dúvida o papel mais difícil perante a lendária prestação de Leonard Nimoy, e Quinto conseguiu criar um Spock autêntico e fiel ao original, mas simultaneamente muito seu. Creio que este papel poderá ser o trampolim da passagem da televisão ao cinema para este actor. E é bem merecido! Spock é protagonista de alguns dos momentos mais inesperadamente emocionantes deste filme, mostrando-se mais em contacto com o seu lado humano que o Spock original. Aliás achei que a personagem ficou muito mais interessante e uma coisa tem que ser dita: don't f*** with da bad side of Spock! E talvez por isso mesmo, não podemos deixar de sentir grande empatia por este filho de dois mundos.
É algo inesperado e ao mesmo tempo, hilariante ver Spock e Kirk às turras durante a primeira parte do filme, sabendo como sabemos que eles eram, e serão, os melhores amigos. Mas afinal as grandes amizades nascem muitas vezes de grandes brigas. Robin Hood lutou com João Pequeno, e D’Artagnan desafiou Porthos, Athos e Aramis para duelos, antes de se tornarem os melhores amigos. Assim é com Kirk e Spock, que chocam de frente mas pouco a pouco aprendem a trabalhar juntos e a permitir que as suas diferenças sejam vantagens e não obstáculos para a equipa. Ver nascer a amizade entre os dois foi, para mim, o melhor do filme.
Não esquecer, claro, o lendário Leonard Nimoy que assume também ele o papel de Spock. Sem entrar em pormenores, direi apenas que Nimoy faz jus à personagem que o celebrizou, imbuindo as suas cenas com a agridoce melancolia de alguém atirado para um universo que é, mas não é, o seu…
Por tudo isto, e muito mais, Star Trek impressionou-me vivamente. Saí do cinema com a sensação de ter visto, mais que uma aventura de ficção científica, uma história sobre o poder da amizade e sobre como ela sempre triunfa sobre as forças do mal. Senti-me feliz e optimista, e mesmo comovida, quando a USS Enterprise partiu em direcção às estrelas enquanto uma voz inesperada, mas bem conhecida, entoava estas palavras lendárias:
Space... the Final Frontier. These are the voyages of the starship Enterprise. Its mission: to explore strange new worlds, to seek out new life and new civilizations, to boldly go where no one has gone before.
Lindo.
6 de Maio de 2009
Madame de...
As noites cinéfilas com os amigos trazem-me não só o prazer da companhia, mas o visionamento de pérolas que outrossim certamente desconheceria por muitos anos. Uma verdadeira educação, enfim. Em jeito de celebração do aniversário da actriz Danielle Darrieux, que aos 92 anos ainda representa com o mesmo afinco de outros tempos, a última sessão incluiu a obra de Max Ophuls Madame De… que é reputada como um dos mais belos filmes já feitos. E eu compreendo perfeitamente porquê. Estes são os filmes que já não se fazem, meus caros. Já não se fazem.

Ou: como o aparentemente corriqueiro se transfigura em sublime. Estamos em finais do século XIX. Louise (Danielle Darrieux), Condessa de…, dama da alta sociedade, com jóias, peles, bailes e admiradores, acumulou dívidas por motivo inconfessado e inconsequente. Para as saldar, decide-se a vender uns brincos de diamantes que o General (Charles Boyer) seu marido lhe ofereceu. Para ela aqueles brincos pouco significam, e oh, nem pensar em separar-se das suas queridas esmeraldas, das suas peles, enfim… Louise vende os brincos ao joalheiro da família e inventa tê-los perdido na ópera.
Mas o destino faz com que os brincos regressem a Louise pela mão do Barão Donati (Vittorio De Sica), um diplomata italiano que dela se enamora. O crescendo de atracção mútua entre os dois é retratado numa admirável sequência de bailes em que interminavelmente dançam juntos, hipnotizados, até que na última cena já todos se foram e os apaixonados dançam, dançam ainda embora a orquestra se esvazie lentamente e os criados apaguem as velas do salão… E os brincos tornam-se subitamente o bem mais valioso do mundo para Louise.
Madame De… é um exercício fascinante sobre o valor intrínseco e extrínseco que damos ao que nos rodeia. Tudo é mutável, tudo tem dois significados. O casamento aparentemente de conveniência entre Louise e o General é afinal uma relação de cumplicidade, alicerçada na compreensão do General perante os admiradores de Louise que nada realmente significam para esta. Apenas quando Louise ultrapassa um limite invisível para se apaixonar de verdade por Donati, o General sente a necessidade de intervir. Mas mesmo quando algumas das suas acções podem parecer cruéis, fiquei sempre com a sensação que o General nutria por Louise uma profunda afeição e que afrontou Donati por este ter causado sofrimento a Louise.
Ao ver este filme, fiquei a meditar se Martin Scorcese não terá ido beber alguma inspiração à obra de Max Ophuls para filmar A Idade da Inocência. Este filme, que ainda hoje me comove pela sua beleza singela, é o único exemplo moderno que consigo aventar em comparação – e com as devidas distâncias – a este Madame De… Ambos têm a mesma cadência suave de outros tempos, tão diferente do ritmo frenético da vida dos nossos dias. Porque hoje já não se morre de amor.

Ou: como o aparentemente corriqueiro se transfigura em sublime. Estamos em finais do século XIX. Louise (Danielle Darrieux), Condessa de…, dama da alta sociedade, com jóias, peles, bailes e admiradores, acumulou dívidas por motivo inconfessado e inconsequente. Para as saldar, decide-se a vender uns brincos de diamantes que o General (Charles Boyer) seu marido lhe ofereceu. Para ela aqueles brincos pouco significam, e oh, nem pensar em separar-se das suas queridas esmeraldas, das suas peles, enfim… Louise vende os brincos ao joalheiro da família e inventa tê-los perdido na ópera.
Mas o destino faz com que os brincos regressem a Louise pela mão do Barão Donati (Vittorio De Sica), um diplomata italiano que dela se enamora. O crescendo de atracção mútua entre os dois é retratado numa admirável sequência de bailes em que interminavelmente dançam juntos, hipnotizados, até que na última cena já todos se foram e os apaixonados dançam, dançam ainda embora a orquestra se esvazie lentamente e os criados apaguem as velas do salão… E os brincos tornam-se subitamente o bem mais valioso do mundo para Louise.
Madame De… é um exercício fascinante sobre o valor intrínseco e extrínseco que damos ao que nos rodeia. Tudo é mutável, tudo tem dois significados. O casamento aparentemente de conveniência entre Louise e o General é afinal uma relação de cumplicidade, alicerçada na compreensão do General perante os admiradores de Louise que nada realmente significam para esta. Apenas quando Louise ultrapassa um limite invisível para se apaixonar de verdade por Donati, o General sente a necessidade de intervir. Mas mesmo quando algumas das suas acções podem parecer cruéis, fiquei sempre com a sensação que o General nutria por Louise uma profunda afeição e que afrontou Donati por este ter causado sofrimento a Louise.
Ao ver este filme, fiquei a meditar se Martin Scorcese não terá ido beber alguma inspiração à obra de Max Ophuls para filmar A Idade da Inocência. Este filme, que ainda hoje me comove pela sua beleza singela, é o único exemplo moderno que consigo aventar em comparação – e com as devidas distâncias – a este Madame De… Ambos têm a mesma cadência suave de outros tempos, tão diferente do ritmo frenético da vida dos nossos dias. Porque hoje já não se morre de amor.
5 de Maio de 2009
Louca por Compras
Mais que um filme de gaja, isto podia ser a história da minha vida. Porque, meus caros leitores, a sensação de comprar um baton ou um vestido (ou melhor ainda, um baton e um vestido) pode mesmo ser uma high fantástica. E é esse o problema da nossa protagonista Becky Bloomwood (Isla Fisher, verdadeira revelação). Becky é viciada em compras, e compra não porque precisa, ou porque queira – compra porque cada aquisição é um momento de potencial transformação, cada artigo uma possível lâmpada mágica que a transformará na criatura dos seus sonhos. Aquele vestido vai transformá-la numa sílfide que apaixonará todos os homens. Aquela écharpe vai ajudá-la a impressionar na entrevista de emprego. E por aí diante.
Claro que há um pequeno problema com este conto de fadas. As contas.
Becky acumula uma assustadora montanha de dívidas em cartões de crédito, exactamente na mesma altura em que a revista onde trabalha vai à falência. Ironia do destino, Becky tenta conseguir um emprego numa famosa revista de moda (velada referência à Vogue, claro) mas acaba a escrever uma coluna de conselhos financeiros numa revista económica. Ou seja, a pregar tudo o que ela não pratica…
Claro que a coluna é um sucesso. Claro que o editor da revista é um garboso jovem que está a ser disputado por uma harpia magricela de saltos altos que trabalha na tal revista de moda. Claro que as dívidas de Becky se vão revelar de uma forma catastrófica antes que o filme acabe. Claro, claro que há um final feliz. Os chick flicks são assim.

Eu quero este vestido!!!
O filme porém nunca é aborrecido ou cai nas piadas tristes e fáceis do género, muito por graça de Isla Fisher que ora é adorável, ora é hilariante, mas nunca vai ao ponto de ser tontinha como infelizmente são algumas heroínas deste género.
Louca por Compras ainda assim consegue, muito por ironia do destino no timing da sua estreia, ser uma hilariante parábola sobre os tempos modernos e sobre esta crise financeira que assolou todo o mundo e que nasceu da seguinte premissa: COMPRE AGORA! PAGUE DEPOIS. Porque a verdade é que, depois de tudo, nós não queremos ser os poupados pais de Becky (brilhantes Joan Cusack e John Goodman). Nós queremos ser Becky e, acima de tudo, ter o guarda-roupa dela. Ou por outras palavras: saí do cinema com vontade de fazer compras, por isso parece-me que a moral da história entrou por um ouvido e saiu pelo outro.
Claro que há um pequeno problema com este conto de fadas. As contas.
Becky acumula uma assustadora montanha de dívidas em cartões de crédito, exactamente na mesma altura em que a revista onde trabalha vai à falência. Ironia do destino, Becky tenta conseguir um emprego numa famosa revista de moda (velada referência à Vogue, claro) mas acaba a escrever uma coluna de conselhos financeiros numa revista económica. Ou seja, a pregar tudo o que ela não pratica…
Claro que a coluna é um sucesso. Claro que o editor da revista é um garboso jovem que está a ser disputado por uma harpia magricela de saltos altos que trabalha na tal revista de moda. Claro que as dívidas de Becky se vão revelar de uma forma catastrófica antes que o filme acabe. Claro, claro que há um final feliz. Os chick flicks são assim.

O filme porém nunca é aborrecido ou cai nas piadas tristes e fáceis do género, muito por graça de Isla Fisher que ora é adorável, ora é hilariante, mas nunca vai ao ponto de ser tontinha como infelizmente são algumas heroínas deste género.
Louca por Compras ainda assim consegue, muito por ironia do destino no timing da sua estreia, ser uma hilariante parábola sobre os tempos modernos e sobre esta crise financeira que assolou todo o mundo e que nasceu da seguinte premissa: COMPRE AGORA! PAGUE DEPOIS. Porque a verdade é que, depois de tudo, nós não queremos ser os poupados pais de Becky (brilhantes Joan Cusack e John Goodman). Nós queremos ser Becky e, acima de tudo, ter o guarda-roupa dela. Ou por outras palavras: saí do cinema com vontade de fazer compras, por isso parece-me que a moral da história entrou por um ouvido e saiu pelo outro.
salas:
anos: 2000's,
gen: chick flick,
gen: comédia,
isla fisher
4 de Maio de 2009
Highlander - Os Imortais
Uma entrada muito extensa para explicar porque Highlander: A Origem continua a ser o pior filme que alguma vez vi no cinema. Mas o elogio é devido, meus caros: é muito, mas muito difícil fazer trampa deste calibre...
Eu gostava imenso da série de televisão Highlander - Os Imortais, que passou quase toda na SIC aqui há uns anos. Talvez fosse a música fantástica dos Queen. Talvez fossem as personagens secundárias sumarentas - em especial o cínico Methos, o meu preferido. Mas a verdade é que a série era bem melhor que as sequelas cinematográficas do Highlander original. Essas foram sendo cada vez piorzinhas. A última, Highlander - Endgame, já reunia os Imortais Connor e Duncan MacLeod, mas nem por isso era melhor. Um cenário apocalíptico preparava-se.

Agora para perceberem bem a gravidade disto, vão levar com um parágrafo inteiro de exposição. O primeiro Highlander era um filme de fantasia interessante que teve um êxito inesperado. Segundo a mitologia Highlander, entre nós vivem desde o princípio dos tempos seres imortais de origem desconhecida. Apenas perdem a vida através da decapitação, e desde sempre têm lutado entre si pela supremacia, pois no final só poderá existir um: «There can be only one». Por isso, os Imortais passam a vida a combater entre si em duelos à espada. O vencedor absorve a energia vital do vencido, o que é conhecido como «Quickening» e normalmente mete muitos relâmpagos e vidros partidos. Connor MacLeod, interpretado por Christopher Lambert, é um Imortal nascido nas Terras Altas da Escócia em 1536. Treinado por Ramirez, um Imortal supostamente originário do Antigo Egipto, vestido e com nome de espanhol, e com o sotaque inconfundivelmente escocês de Sean Connery (não é para perceber!), MacLeod sobrevive até ao século XX, e acaba por lutar o último duelo com o mau da fita, Kurgan (uma fantástica interpretação de Clancy Brown). O Kurgan é mesmo mau: matou o Ramirez, violou a namorada do MacLeod e é gótico. Agora imaginem isto tudo com o Freddie Mercury a cantar.
O segundo filme, Highlander II - The Quickening tentou seguir a continuidade e passa-se no século XXI, sendo muito mais próximo da ficção científica que da fantasia. Foi um fracasso e ainda hoje há relatos de grandes brigas entre o realizador e os produtores, que cortaram o filme. Só para verem, o Director's Cut chama-se The Renegade Version. Tem ao menos o mérito de ser ousado.
O terceiro filme, Highlander III - The Sorceror resolve o problema fazendo de conta que o segundo filme não existiu. Não é mau nem bom, é chato. O Mario Van Peebles faz de vilão e é o primeiro a sofrer da «síndrome Kurgan»: os maus da fita são uma espécie de reinvenção do Kurgan, mas pirosos como tudo, porque nenhum chega aos pés da interpretação de Clancy Brown.
Entretanto fizeram a série Highlander - Os Imortais e foi por esta altura que o clã MacLeod começou a multiplicar-se que nem coelhos. Entra em cena Duncan MacLeod, mais ou menos primo de Connor, e por seis épocas seguimos as suas aventuras e desventuras. Mas a série era interessante, a sério. Pelo menos até o Richie Ryan morrer...
Se as coisas tivessem ficado por aqui, tudo bem. Mas não. Inventaram mais uma série de desenhos animados, que supostamente se passada num futuro pós-apocalíptico, com o Ramirez (que estava morto matado, como diria a minha avozinha!) a treinar outro Imortal do clã MacLeod, um tal de Quentin. I see a pattern here... Não fazia grande mossa, mas não tinha nada a ver.
Com o final da série televisiva, tiveram a ideia de reunir os protagonistas Connor e Duncan para um filme que é, essencialmente, uma passagem de testemunho. Em Highlander - Endgame assistimos ao sacrifício de Connor para que Duncan absorva os seus poderes e possa lutar contra o Imortal Kell, o mais poderoso de sempre. Aqui as coisas começam a resvalar para o mauzinho, mas suportável. E esta tendência do Duncan para andar sempre a choramingar atrás de gajas começa seriamente a irritar-me.
Mas foi com espírito aberto que entrei na sala de cinema para ver Highlander - A Origem. Não durou muito. Vejamos: Cenário pós-apocalíptico, confere. O Duncan a choramingar atrás de uma gaja, confere. Olha, o Methos! Jeitoso e sarcástico como sempre. Pode ser que isto ainda se salve. Mas a minha alegria em ver o Methos de volta ao ecrã começou a desvanecer-se rapidamente quando em rápida sucessão surgem: (i) um Imortal que é um cardeal católico com um mohawk loiro, (ii) a reciclagem do enredo do Tomb Raider, e (iii) a pior vítima que eu já vi do «síndrome Kurgan», o vilão, é claro, só que este era «mau» no sentido em que, quando ele aparecia, as pessoas no cinema começavam a rir-se... E a seguir o Methos vestiu um casaco de cabedal com franjas. Aí eu soube que estava tudo perdido. Podem achar que a moda não é importante, mas asseguro-vos, meus caros, que o Methos da série televisiva nunca vestiria um casaco de cabedal com franjas.
Posso dizer, com orgulho, que foi o pior filme que já vi no cinema. Acho que nem sequer vale a pena a largura de banda para sacar uma cópia pirata, portanto nem isso recomendo. Não tenho palavras para descrever quão mau foi. Só posso dizer isto: depois de começar com Christopher Lambert a lutar ao som de Queen, com uma espada de samurai, a saga Highlander acaba com Adrian Paul a lutar com um par de facas Ginsu.
A heresia, meus caros. O filme é tão mau, que a título de castigo os produtores deviam ser obrigados a vê-lo. O filme é tão mau, que se o exibissem em Guantanamo a Amnistia Internacional atirava-se ao ar por gravosa violação dos direitos humanos dos Taliban. Porque waterboarding e outras torturas ainda é como o outro, mas isto...
Publicado originalmente a 17 de Setembro de 2007 em Listening to Dragons.
Eu gostava imenso da série de televisão Highlander - Os Imortais, que passou quase toda na SIC aqui há uns anos. Talvez fosse a música fantástica dos Queen. Talvez fossem as personagens secundárias sumarentas - em especial o cínico Methos, o meu preferido. Mas a verdade é que a série era bem melhor que as sequelas cinematográficas do Highlander original. Essas foram sendo cada vez piorzinhas. A última, Highlander - Endgame, já reunia os Imortais Connor e Duncan MacLeod, mas nem por isso era melhor. Um cenário apocalíptico preparava-se.

Agora para perceberem bem a gravidade disto, vão levar com um parágrafo inteiro de exposição. O primeiro Highlander era um filme de fantasia interessante que teve um êxito inesperado. Segundo a mitologia Highlander, entre nós vivem desde o princípio dos tempos seres imortais de origem desconhecida. Apenas perdem a vida através da decapitação, e desde sempre têm lutado entre si pela supremacia, pois no final só poderá existir um: «There can be only one». Por isso, os Imortais passam a vida a combater entre si em duelos à espada. O vencedor absorve a energia vital do vencido, o que é conhecido como «Quickening» e normalmente mete muitos relâmpagos e vidros partidos. Connor MacLeod, interpretado por Christopher Lambert, é um Imortal nascido nas Terras Altas da Escócia em 1536. Treinado por Ramirez, um Imortal supostamente originário do Antigo Egipto, vestido e com nome de espanhol, e com o sotaque inconfundivelmente escocês de Sean Connery (não é para perceber!), MacLeod sobrevive até ao século XX, e acaba por lutar o último duelo com o mau da fita, Kurgan (uma fantástica interpretação de Clancy Brown). O Kurgan é mesmo mau: matou o Ramirez, violou a namorada do MacLeod e é gótico. Agora imaginem isto tudo com o Freddie Mercury a cantar.
O segundo filme, Highlander II - The Quickening tentou seguir a continuidade e passa-se no século XXI, sendo muito mais próximo da ficção científica que da fantasia. Foi um fracasso e ainda hoje há relatos de grandes brigas entre o realizador e os produtores, que cortaram o filme. Só para verem, o Director's Cut chama-se The Renegade Version. Tem ao menos o mérito de ser ousado.
O terceiro filme, Highlander III - The Sorceror resolve o problema fazendo de conta que o segundo filme não existiu. Não é mau nem bom, é chato. O Mario Van Peebles faz de vilão e é o primeiro a sofrer da «síndrome Kurgan»: os maus da fita são uma espécie de reinvenção do Kurgan, mas pirosos como tudo, porque nenhum chega aos pés da interpretação de Clancy Brown.
Entretanto fizeram a série Highlander - Os Imortais e foi por esta altura que o clã MacLeod começou a multiplicar-se que nem coelhos. Entra em cena Duncan MacLeod, mais ou menos primo de Connor, e por seis épocas seguimos as suas aventuras e desventuras. Mas a série era interessante, a sério. Pelo menos até o Richie Ryan morrer...
Se as coisas tivessem ficado por aqui, tudo bem. Mas não. Inventaram mais uma série de desenhos animados, que supostamente se passada num futuro pós-apocalíptico, com o Ramirez (que estava morto matado, como diria a minha avozinha!) a treinar outro Imortal do clã MacLeod, um tal de Quentin. I see a pattern here... Não fazia grande mossa, mas não tinha nada a ver.
Com o final da série televisiva, tiveram a ideia de reunir os protagonistas Connor e Duncan para um filme que é, essencialmente, uma passagem de testemunho. Em Highlander - Endgame assistimos ao sacrifício de Connor para que Duncan absorva os seus poderes e possa lutar contra o Imortal Kell, o mais poderoso de sempre. Aqui as coisas começam a resvalar para o mauzinho, mas suportável. E esta tendência do Duncan para andar sempre a choramingar atrás de gajas começa seriamente a irritar-me.
Mas foi com espírito aberto que entrei na sala de cinema para ver Highlander - A Origem. Não durou muito. Vejamos: Cenário pós-apocalíptico, confere. O Duncan a choramingar atrás de uma gaja, confere. Olha, o Methos! Jeitoso e sarcástico como sempre. Pode ser que isto ainda se salve. Mas a minha alegria em ver o Methos de volta ao ecrã começou a desvanecer-se rapidamente quando em rápida sucessão surgem: (i) um Imortal que é um cardeal católico com um mohawk loiro, (ii) a reciclagem do enredo do Tomb Raider, e (iii) a pior vítima que eu já vi do «síndrome Kurgan», o vilão, é claro, só que este era «mau» no sentido em que, quando ele aparecia, as pessoas no cinema começavam a rir-se... E a seguir o Methos vestiu um casaco de cabedal com franjas. Aí eu soube que estava tudo perdido. Podem achar que a moda não é importante, mas asseguro-vos, meus caros, que o Methos da série televisiva nunca vestiria um casaco de cabedal com franjas.
Posso dizer, com orgulho, que foi o pior filme que já vi no cinema. Acho que nem sequer vale a pena a largura de banda para sacar uma cópia pirata, portanto nem isso recomendo. Não tenho palavras para descrever quão mau foi. Só posso dizer isto: depois de começar com Christopher Lambert a lutar ao som de Queen, com uma espada de samurai, a saga Highlander acaba com Adrian Paul a lutar com um par de facas Ginsu.
A heresia, meus caros. O filme é tão mau, que a título de castigo os produtores deviam ser obrigados a vê-lo. O filme é tão mau, que se o exibissem em Guantanamo a Amnistia Internacional atirava-se ao ar por gravosa violação dos direitos humanos dos Taliban. Porque waterboarding e outras torturas ainda é como o outro, mas isto...
Publicado originalmente a 17 de Setembro de 2007 em Listening to Dragons.
30 de Abril de 2009
X-Men Origens: Wolverine
Bem. Devo dizer que o meu mutante e canadiano preferido anda com um azar do caraças. Primeiro foi a workprint do filme que foi parar à internet um mês antes da estreia. Depois a gripe mexicana (soa melhor que gripe dos porcos…) obrigou ao cancelamento de uma das ante-estreias que se iria realizar na Cidade do México. E andam para aí umas más línguas a dizer mal do filme. A Empire, por exemplo, deu-lhe duas míseras estrelas. Ora, talvez isto seja um caso de expectativas rebaixadas, mas depois disto tudo, acabei por gostar imenso do filme, diverti-me à brava, e acho que ao fim e ao cabo fez um bom trabalho a retratar esta personagem.
O filme não é perfeito, claro. Tratando-se de uma personagem com uma história tão rica como Wolverine, corria o sério risco de tornar-se uma mera lista de compras: temos de mostrar a infância do Wolverine, ele tem de dizer a frase “I’m the best at what I do, and what I do ain’t nice”, temos de mostrar o Programa Arma X, temos de mostrar a rivalidade com o Sabretooth, etc. e tal. E a verdade é que às vezes parece mesmo. Em especial os primeiros vinte minutos do filme têm um sério problema de ritmo porque andamos a saltar de uma coisa para a outra quase sem tempo de digerir o que aconteceu na cena anterior. Aqui receei seriamente ir assistir às Obras Completas de Wolverine em 97 Minutos. Mas depois o filme abranda um pouco e encontra um ritmo mais fluido. É certo que as transições algo súbitas continuam até ao fim, mas acaba por resultar, pois lembrou-me exactamente o ritmo de uma BD em que passamos de uma página com uma cena introspectiva, para uma cena de porrada na página seguinte.
Wolverine, desenhado pelo grande Michael Turner
Hugh Jackman como Logan/James Howlett/Wolverine está, claro, perfeito. Só tenho pena que ele não tenha ficado ainda mais berserker no meio da pancadaria. O actor consegue uma sintonia perfeita entre acção pura e dura, e momentos de emoção e até de comédia. Por seu lado, Liev Schreiber consegue tornar o seu Victor Creed/Sabretooth no amigo tornado em adversário e contraponto perfeito para Wolverine. Um trabalho difícil sem dúvida, pois a relação visceral entre estes dois é essencial ao mito de Wolverine. Mas sucesso a cem por cento. Fantástico como ele consegue ser um grande filho da mãe, mas no entanto quando se descobre a traição feita a Logan, há um momento em que quase parece que Victor está a sentir pena dele. A partir de hoje, para mim Liev Schreiber é Victor Creed e está tudo dito. Aquele tipo que aparece a fazer de Sabretooth no primeiro X-Men… bem, há-de ser outro mutante qualquer, mas o Victor Creed não é de certeza!
Os restantes intérpretes fazem igualmente bons trabalhos, e só tenho pena que alguns tenham tão pouco tempo no filme. O cantor Will.i.am faz um trabalho interessante como John Wraith (personagem original não existente nos comics). E Taylor Kitsch como Remy LeBeau/Gambit… só tenho a dizer: UAU! Marquem-me bilhete no próximo avião para Nova Orleães!

Resmas de gajos bons... resmas!
Já Wade Wilson/Deadpool era uma personagem que eu não conhecia, mas após ler alguns zunzuns sobre a evolução da personagem neste filme, fui investigar… Ora, realmente, na primeira parte do filme Ryan Reynolds retrata o mercenário de forma perfeita e muito em linha com os comics. Deadpool é uma daquelas personagens que apareceu como antagonista, e teve tanto sucesso que acabou por ganhar o seu próprio título. Chamam-lhe the merc with a mouth porque o rapaz está sempre a mandar bocas. Aliás é mesmo completamente marado, ao ponto de falar com o leitor e parecer comportar-se como se soubesse que é uma personagem de BD! Por exemplo, quando o Homem-Aranha revela publicamente a sua identidade durante a história Civil War da Marvel, Deadpool sai-se com esta: “Grande coisa… já vimos os filmes e estamos fartos de saber que era o Tobey Maguire debaixo da máscara!” Com tudo isto em mente… o que fazem ao rapaz no final do filme, é muito mauzinho.

Deadpool demonstra mais uma vez que é passado dos carretos!
O enredo acaba por ser coeso e liga-se bastante bem com a saga X-Men, especialmente com X2, para mim o melhor filme da saga, onde havia sido introduzido o personagem William Stryker (em X2 interpretado por Brian Cox, aqui interpretado por Danny Huston, ambos fantásticos) e a temática do programa Arma X. Tudo se liga, mesmo alguns elementos que eu receava, nomeadamente a aparição de um certo rapazito de olhos fulminantes… Mesmo aquelas cenas um bocadito xaroposas com a Kayla no início do filme, acabam por fazer sentido no final. Agora o que eu não engulo, é que aquelas duas meninas sejam irmãs. Desculpem, mas aí é que a porca (sem gripe!) torce o rabo. Quando virem o filme, perceberão do que estou a falar.

E no final, não só temos direito a uma aparição muito, muito especial de um certo mutante carequinha… como vos recomendo que vejam o filme até ao final dos créditos para ver a cena bónus! Dizem que há várias cenas bónus diferentes no final dos créditos… a que eu vi mostrava o Logan no Japão. Se alguém vir uma diferente, agradeço que me deixem um comentário.
O filme não é perfeito, claro. Tratando-se de uma personagem com uma história tão rica como Wolverine, corria o sério risco de tornar-se uma mera lista de compras: temos de mostrar a infância do Wolverine, ele tem de dizer a frase “I’m the best at what I do, and what I do ain’t nice”, temos de mostrar o Programa Arma X, temos de mostrar a rivalidade com o Sabretooth, etc. e tal. E a verdade é que às vezes parece mesmo. Em especial os primeiros vinte minutos do filme têm um sério problema de ritmo porque andamos a saltar de uma coisa para a outra quase sem tempo de digerir o que aconteceu na cena anterior. Aqui receei seriamente ir assistir às Obras Completas de Wolverine em 97 Minutos. Mas depois o filme abranda um pouco e encontra um ritmo mais fluido. É certo que as transições algo súbitas continuam até ao fim, mas acaba por resultar, pois lembrou-me exactamente o ritmo de uma BD em que passamos de uma página com uma cena introspectiva, para uma cena de porrada na página seguinte.
Hugh Jackman como Logan/James Howlett/Wolverine está, claro, perfeito. Só tenho pena que ele não tenha ficado ainda mais berserker no meio da pancadaria. O actor consegue uma sintonia perfeita entre acção pura e dura, e momentos de emoção e até de comédia. Por seu lado, Liev Schreiber consegue tornar o seu Victor Creed/Sabretooth no amigo tornado em adversário e contraponto perfeito para Wolverine. Um trabalho difícil sem dúvida, pois a relação visceral entre estes dois é essencial ao mito de Wolverine. Mas sucesso a cem por cento. Fantástico como ele consegue ser um grande filho da mãe, mas no entanto quando se descobre a traição feita a Logan, há um momento em que quase parece que Victor está a sentir pena dele. A partir de hoje, para mim Liev Schreiber é Victor Creed e está tudo dito. Aquele tipo que aparece a fazer de Sabretooth no primeiro X-Men… bem, há-de ser outro mutante qualquer, mas o Victor Creed não é de certeza!
Os restantes intérpretes fazem igualmente bons trabalhos, e só tenho pena que alguns tenham tão pouco tempo no filme. O cantor Will.i.am faz um trabalho interessante como John Wraith (personagem original não existente nos comics). E Taylor Kitsch como Remy LeBeau/Gambit… só tenho a dizer: UAU! Marquem-me bilhete no próximo avião para Nova Orleães!

Já Wade Wilson/Deadpool era uma personagem que eu não conhecia, mas após ler alguns zunzuns sobre a evolução da personagem neste filme, fui investigar… Ora, realmente, na primeira parte do filme Ryan Reynolds retrata o mercenário de forma perfeita e muito em linha com os comics. Deadpool é uma daquelas personagens que apareceu como antagonista, e teve tanto sucesso que acabou por ganhar o seu próprio título. Chamam-lhe the merc with a mouth porque o rapaz está sempre a mandar bocas. Aliás é mesmo completamente marado, ao ponto de falar com o leitor e parecer comportar-se como se soubesse que é uma personagem de BD! Por exemplo, quando o Homem-Aranha revela publicamente a sua identidade durante a história Civil War da Marvel, Deadpool sai-se com esta: “Grande coisa… já vimos os filmes e estamos fartos de saber que era o Tobey Maguire debaixo da máscara!” Com tudo isto em mente… o que fazem ao rapaz no final do filme, é muito mauzinho.

O enredo acaba por ser coeso e liga-se bastante bem com a saga X-Men, especialmente com X2, para mim o melhor filme da saga, onde havia sido introduzido o personagem William Stryker (em X2 interpretado por Brian Cox, aqui interpretado por Danny Huston, ambos fantásticos) e a temática do programa Arma X. Tudo se liga, mesmo alguns elementos que eu receava, nomeadamente a aparição de um certo rapazito de olhos fulminantes… Mesmo aquelas cenas um bocadito xaroposas com a Kayla no início do filme, acabam por fazer sentido no final. Agora o que eu não engulo, é que aquelas duas meninas sejam irmãs. Desculpem, mas aí é que a porca (sem gripe!) torce o rabo. Quando virem o filme, perceberão do que estou a falar.

E no final, não só temos direito a uma aparição muito, muito especial de um certo mutante carequinha… como vos recomendo que vejam o filme até ao final dos créditos para ver a cena bónus! Dizem que há várias cenas bónus diferentes no final dos créditos… a que eu vi mostrava o Logan no Japão. Se alguém vir uma diferente, agradeço que me deixem um comentário.
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